O avanço da DeepSeek desafia o domínio das Big Techs. A tecnologia pode ser apropriada por movimentos populares para além do capitalismo e do colonialismo digital?
(Antonino Condorelli)
Na primeira parte desse texto, discute-se como o lançamento dos chatbots da DeepSeek impactou as Big Techs dos EUA, evidenciando uma disputa no capitalismo digital. Com software aberto e baixos custos, a China promove um modelo alternativo, desafiando o domínio tecnológico ocidental sem romper com o capitalismo, mantendo lógicas de acumulação e colonialismo. Siga agora com a parte inédita do artigo.
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A startup chinesa, inclusive, não se preocupou com uma maior diversificação da base de dados para o treinamento de seus modelos de linguagem com relação às utilizadas para treinar suas congêneres estadunidenses. Da mesma forma que o TikTok não é a solução emancipatória ao domínio de Meta e X das plataformas de redes sociais (tanto que, por exemplo, o crescimento da extrema-direita na Europa deve muito à sua atuação no TikTok), embora a rede chinesa possua um algoritmo menos diretamente voltado à promoção de conteúdos fascistas, a DeepSeek não é a solução emancipatória ao poder de OpenAI e Google no desenvolvimento de inteligências artificiais generativas. No entanto, o modelo de produção, funcionamento e gestão das inteligências artificiais generativas da DeepSeek me parece vislumbrar possibilidades de apropriação promissoras para as lutas emancipatórias.
Inteligências artificiais emancipatórias seriam inteligências artificiais concebidas e programadas coletivamente por movimentos sociais populares, coletivos, grupos, comunidades e experiências anticapitalistas e contracoloniais de diversas latitudes do Sul Global; modelos de linguagem treinados com bases de dados pluriversais elaboradas por sujeitos coletivos periféricos insurgentes: IAs zapatistas, IAs concebidas por movimentos de luta por terra e moradia na América Latina e na África, IAs de movimentos e coletivos indígenas de Abya Yala, IAs quilomboas, IAs da resistência palestina, da resistência curda, da resistência saaraui, das resistências negras em todas as latitudes, IAs de comunidades em luta contra mineradoras e “grandes obras”, IAs de coletivos periféricos… Inteligências artificiais não pensadas para solucionar problemas corporativos e otimizar a busca por lucro, mas para multiplicar e pluriversalizar os saberes humanos, as cosmologias, as histórias, para procurar soluções criativas e não-capitalocêntricas para a relação humano-biosfera, para a catástrofe climática do Capitaloceno, para a desconstrução do racismo, do patriarcado, para a superação das opressões históricas.
Os modelos de linguagem da DeepSeek, ao passo que apontam que é possível produzir IAs sem custos muito elevados (mas ainda assim, por enquanto, inacessíveis aos movimentos emancipatórios) e sem precisar de enormes quantidades de chips e de grandes data centers, o que é alentador para coletivos insurgentes (pois permite pensar que, se foi possível fazê-lo com poucos milhões de dólares, talvez o seja também com algumas centenas de milhares de reais, de pesos, de rands, de dirhams…), abrem uma brecha ainda mais decisiva: o código aberto que a startup chinesa disponibilizou pode ser apropriado não só por programadores independentes ou por outras pequenas empresas pelo mundo, mas também por programadoras e programadores engajados em movimentos populares para que possam modifica-lo, adaptá-lo, melhorá-lo e usá-lo como base para o desenvolvimento de IAs com fins emancipatórios. Uma das consequências (talvez não prevista nem desejada) do modelo de acumulação de capital e de colonialismo digital promovido pela China, baseado na articulação global das forças produtivas e no aproveitamento da socialização do trabalho criativo, pode ser liberar o potencial digital de grupos oprimidos e de movimentos populares anticapitalistas e contracoloniais.
Em uma perspectiva emancipatória, penso que esse passo (que ainda está por ser dado e não sabemos se e quando os oprimidos do mundo terão condições reais de dá-lo) será só o primeiro rumo a uma transformação ainda mais profunda e substancial: a superação da própria concepção moderna e ocidentecêntrica de tecnologia e de inteligência e a plurivesalização das ontoepistemes tecnológicas e suas materializações. Não mais a apropriação de tecnologias modernas para dar-lhes outros fins, mas a criação de novos modos de ser das tecnologias, de novos modos de articular a realidade.
Leia outro texto do mesmo autor: Azania: a desconstrução do conhecimento branco como caminho de emancipação
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Antonino Condorelli é professor do Departamento de Comunicação Social da UFRN e coordenador do grupo de pesquisa DESCOM e membro da equipe de curadoria desta coluna Diversidades
A coluna Diversidades tem a curadoria do grupo de pesquisa DESCOM – Insurgências Decoloniais, Comunicação, Artes e Humanidades, do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
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