Reflexões sobre o impacto do modelo da DeepSeek no capitalismo digital e suas implicações para as lutas populares
(Antonino Condorelli)
O lançamento dos chatbots da startup chinesa DeepSeek e a queda de aproximadamente um trilhão de dólares que causou no preço das ações do setor da alta tecnologia estadunidense (afetando Big Techs como Google, Meta, Amazon e Microsoft) refletem uma disputa de lógicas de acumulação dentro do capitalismo globalizado, em sua fase contemporânea de colonialismo digital, assim como uma luta entre paradigmas de exercício e de gestão do poder tecnocolonial. Uma disputa que, ainda que intracapitalista e intracolonial, abre brechas para novos modos de apropriação tecnológica por parte de atores insurgentes engajados em lutas emancipatórias.
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O software de código aberto e os baixíssimos custos de desenvolvimento dos chatbots da DeepSeek – se comparados com os das megacorporações estadunidenses – foram elementos disruptivos no modo de acumulação que se tornou hegemônico no Vale do Silício. O despencar histórico das ações de Big Techs e de desenvolvedoras de chips estadunidenses, o nervosismo manifestado pelos gigantes dos modelos de inteligência artificial (IA) proprietários e pelo governo de Donald Trump, a perda de confiança do tal “mercado” e da sociedade em geral nas promessas das Big Techs em troca de investimentos públicos bilionários (se essa perda realmente levará o governo estadunidense a desinvestir nelas é outra questão, mas certamente a narrativa dos altos custos não se sustenta mais) revelam a intensidade do golpe que os atores centrais do colonialismo digital contemporâneo sofreram.
Além do mais, o potencial que o modelo da DeepSeek encerra de multiplicar o poder de desenvolver IAs generativas (e de produzir valor por meio delas) para muito além de poucas grandes megacorporações permite vislumbrar um capitalismo digital global mais diversificado, o que é uma boa notícia em uma conjuntura histórica na qual as Big Techs estadunidenses deixaram explícita sua organicidade ao projeto etnonacionalista, supremacista branco, xenófobo, misógino e de declarada inspiração nazifascista da extrema-direita mundial.
Em um artigo publicado no Blog da Boitempo, Carlos Eduardo Martins defende que o modelo encarnado pela DeepSeek (software de código aberto; ênfase no trabalho intelectual integrado de programadores, profissionais das ciências humanas e poetas; baixos custos e baixo consumo energético, resultando em um relativamente baixo impacto na biosfera) e promovido pela China graças ao investimento em força de trabalho intelectual, à priorização do desenvolvimento de software ao invés que o de hardware e ao incentivo à articulação das forças produtivas, representa um paradigma de acumulação emergente baseado na socialização, nas energias renováveis e na propriedade coletiva, em contraposição ao representado pelo imperialismo estadunidense centrado no controle espacial, na aposta até o fim nos combustíveis fósseis e no modelo proprietário gerador de oligopólios e de dependências.
Uma análise pertinente, desde que não esqueçamos que o que a China enquanto potência tecnocolonial emergente visa não é a emancipação da humanidade e da biosfera do capitalismo e dos regimes de poder a este atrelados (racismo e patriarcado), que sustentam o sistema-mundo configurado pela modernidade brancocentrada, mas a hegemonia de uma lógica de produção de valor e de acumulação de capitais baseada no aproveitamento da socialização do trabalho intelectual (o que não elimina a apropriação privada do valor, embora pluralize os atores que dela se beneficiam e possibilite que mais atores não-ocidentais participem da acumulação global) e em energias consideradas renováveis (cuja produção também afeta brutalmente comunidades vulneráveis e ecossistemas, servindo mais à expansão do capital do que à preservação da geo e da biodiversidade): modelo do qual o país se projeta como líder global. Uma forma mais suave de (tecno)colonialismo, mas só isso: uma variante do capitalismo e do colonialismo menos catastróficas que as promovidas pelo Ocidente.
(Não deixe de ler amanhã a segunda parte desse texto)
Antonino Condorelli é professor do Departamento de Comunicação Social da UFRN e coordenador do grupo de pesquisa DESCOM e membro da equipe de curadoria desta coluna Diversidades
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A coluna Diversidades tem a curadoria do grupo de pesquisa DESCOM – Insurgências Decoloniais, Comunicação, Artes e Humanidades, do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
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