Transpondo os limites da Universidade Ciência Nordestina

terça-feira, 11 fevereiro 2025
Aceitar a aprender com o povo é se colocar em um papel de autodecolonização, apagando todos os resquícios da "doutorite" (Foto: Nossa Ciência)

Ou dito de outra forma: pulando o muro para aprender com o mundo.

(Helinando Oliveira)

A frase “Só sei que nada sei”, atribuída a Sócrates, é uma ode à limitação humana. E o fato é que, quanto mais estudam, mais as pessoas querem estar distantes dessa constatação:

“Ora, se dediquei minha vida a estudar um assunto, como posso dizer que nada sei?” É evidente que todo o conhecimento adquirido ao longo da vida por cada um de nós segue conosco e é fundamental para entender aquilo que buscamos incessantemente. Saber muito sobre um aspecto de um problema garante um grande nível de especialização que será útil para a humanidade em algum momento. Os conhecimentos produzidos por Einstein, por exemplo, chegaram aos pequenos aparelhos de GPS muitas décadas após sua morte.

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No entanto, uma série de outros problemas podem ser favorecidos por nossos estudos, e nós simplesmente nos negamos a conhecê-los por permanecermos na luta de convencer o mundo de que nosso problema vale a pena. Há também uma resistência quanto a assumir nossa impotência na solução dos problemas da vida. Assim, permanecemos trancados dentro da universidade, orientando nossos discípulos e incentivando-os a continuar nossa linha de pesquisa como um legado.

Pompa e solenidade aos doutores

Dentro da universidade, estamos mais protegidos de dizer que não sabemos sobre muitas coisas no universo, pois esse é o nosso habitat, com toda a pompa e solenidade aos doutores do conhecimento. Até ousamos criar o termo “problema multidisciplinar” para modelar os problemas da vida, quando, na verdade, ela (a vida) nunca precisou de matriz curricular ou de disciplina alguma para existir. O problema é o que é, e não precisamos ter vergonha de não saber resolvê-lo. Dizer um “não sei” é libertador, pois nos desobriga de assumir o papel de protagonista do processo, sendo apenas mais um.

Sair dos muros da universidade é enriquecedor, pois nos dá a visão real de nossa pequenez no contexto do mundo. Se somos doutores do conhecimento lá dentro, aqui fora precisamos ter a humildade para sentar com o povo e aprender com a experiência de alguém que provavelmente não saiba nem escrever.

É como voltar a ser estudante

Aceitar que podemos aprender com o povo é como rejuvenescer, voltar a ser estudante, quebrar as barreiras disciplinares e se colocar como mais um, em um papel de autodecolonização, apagando todos os resquícios da “doutorite” que ainda restem em nós. Fácil? Nunca. Quem disse que seria fácil?

As vestes talares e a formalidade nos fazem entender que podemos colonizar com nossos conhecimentos, quando, na verdade, é o mundo que está pronto para nos ensinar e destruir toda a disciplinaridade que ainda habita em nós. Ela, a disciplinaridade, enquadra nossa forma de pensar… E as soluções que o mundo precisa são muito mais curvas. Eu posso aprender com o mundo e dispor das ferramentas que domino para ajudar, se elas forem úteis. Caso contrário, irei aprender novos métodos e entender que o “não sei” nunca foi um fim, mas sim uma oportunidade de começar de novo.

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Helinando Oliveira é físico, professor titular da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e atualmente é vice presidente da Academia Pernambucana de Ciência.

A coluna Ciência Nordestina é atualizada às terças-feiras

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