O texto analisa a evolução tecnológica da última década e seus impactos sociais. Da tilápia-borg à Tilap.IA, ele explora como a inovação nos molda e nos desafia.
(Gláucio Brandão)
No dia 13/10/2014, em um dos anfiteatros de minha casa profissional, a Escola de Ciências e Tecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), palestrei para uma plateia de aproximadamente 150 pessoas. Como foi feita em nuvem, e para minha surpresa, qualquer pessoa pode resgatá-la. Basta clicar em A Tilápia da Inovação para assistir a um grande show (risos).
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Pois bem, o motivo principal para voltar ao tema se dá pela necessidade de atualizar o conceito desse peixe, onde considerarei o grande avanço tecnológico que, incrível e contrastantemente, pouco impactou no aprimoramento social nestes 10 anos. O outro, menos importante, é que até hoje muitos professores da ECT lembram mais da palestra do que de meu nome. Contextualizemos e, na sequência, façamos update.
(original da palestra)
Contextualizando. A pedidos, em 17/10/2018 transformei a palestra na aula condensada (AC) Tilápia da Inovação . Para que vocês não precisem ir até lá, solicitei ao ChatGPT que acessasse a AC e retornasse o resumo da ópera, o que foi feito com maestria. Fala, GPT:
No artigo “A Tilápia da Inovação”, o autor aborda a importância de ensinar métodos de inovação de forma prática e acessível, utilizando a metáfora de “ensinar a pescar” para enfatizar a necessidade de transmitir conhecimento de maneira eficaz. A metáfora da tilápia ilustra o processo de desenvolvimento da inovação e sua interconexão com diversos aspectos da sociedade.
Inicialmente, o conhecimento sobre pesca se dissemina, criando uma metodologia e uma universidade para aprimorá-la. Em seguida, o comércio surge da valorização desse conhecimento, gerando cadeias de distribuição e mercado. A ciência avança, explorando subprodutos da tilápia, enquanto a estratificação social se manifesta na valorização diferenciada das partes do peixe. O texto também aborda questões ambientais, espirituais e tecnológicas, culminando na criação da “tilápia-borg”.
Por fim, ele mostra como o comércio e a especulação financeira podem levar à corrupção e à virtualização do produto, representando a complexidade dos sistemas econômicos e sociais.
Bravo, Chat! Como diria Trinity (Matrix, 1999), “agora vocês estão atualizados”.
Entre 2014 e 2025, muitas tecnologias surgiram e algumas se consolidaram. Citando as mais proeminentes: Inteligência Artificial (IA) e Aprendizado de Máquina, Internet das Coisas (IoT), Computação em Nuvem, 5G e Conectividade Avançada, Veículos Autônomos, Realidade Virtual (VR) e Aumentada (AR), Blockchain e Criptomoedas, Biotecnologia e Medicina de Precisão, Cibersegurança Avançada e Computação Quântica. Revendo isso em um dos livros de Vaclav Smil, não pude deixar de atualizar uma de minhas mais famosas palestras.
Atualizando. A tilápia original apresentava o que chamei de tilápia-borg, uma metáfora que remontava apenas à automação braçal. Apenas isso! Este processo retiraria o peso de atividades menos nobres de nossas mãos, nos deixando livres para trabalhar a massa cinzenta e evoluir como raça. Mas o efeito parece ter sido contrário.
De lá para cá, a IA atual, embora ainda não seja geral, atingiu um nível inimaginável, impactando profundamente nossa tilápia e alterando todos os aspectos que projetei. Inicialmente, estimei que apenas 10% da população estaria na condição “nem-nem” (nem trabalhariam, nem estudariam). No entanto, as tecnologias consolidadas intensificaram esse desafio. O estímulo dopaminérgico gerado por diversas facilidades de prazer (games, apostas, conteúdos adultos etc.) desmotivou ainda mais pessoas a buscar aprimoramento, o que me levou a atualizar o mnemônico para “nem-nem-nem”: nem trabalham, nem estudam, nem pensam.
Há mais de uma década, a gloriosa tilápia da inovação fez sua parte—e, claro, aqui estamos nós, ainda precisando de outra. Agora, diante do novo e brilhante paradigma tecnológico (que ironicamente nos deixou mais letárgicos do que nunca), a missão é projetar uma tilápia esperta o suficiente para nos salvar de nós mesmos. O que for criado precisará entender nosso contexto deprimente e nos ensinar a, quem sabe, parar de nos autossabotar.
E como qualquer coisa hoje em dia precisa ter “IA” no nome para parecer revolucionária, apresento-lhes a Tilap.IA, em hieroglifo moderno. Trata-se de um peixe digital que, com sorte, nos impedirá de boiar à deriva no mar da estupidez. Nessa linha, deposito aqui um provérbio da era dos iluminados por telas: “Não basta aceitar o peixe; é preciso aprender a usar a Tilap.IA”. Volto em dez anos com mais tilápia para vocês, porque, aparentemente, sempre vamos precisar de uma.
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Gláucio Brandão é professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e autor do livro Triztorming
A coluna Disruptiva é atualizada às quintas-feiras
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